quarta-feira, 19 de março de 2008

Lógica Tostines

O serviços públicos são menosprezados porque são ruins ou são ruins porque são menosprezados?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Hábitos espartanos

Logo à entrada uma placa com os dizeres “Bem-vindo à Ibiza Brasileira”, também conhecida como Jurerê Internacional, uma praia ao norte da Ilha de Florianópolis.

Imagine uma lugar paradisíaco de águas quase quentes em pleno sul do Brasil cercado por casas hollywoodianas, uma profusão de carros importados, em uma só garagem dois Porsches e uma BWM que valem juntos mais de um milhão e meio de reais. Tempere com restaurantes a beira-mar onde um Champanhe custa seis mil reais e contam com puffs, espreguiçadeiras e sofás na areia além de potentes caixas de som embaladas por música eletrônica, aliás é esse o som dos milionários, acho que a batida deve ajudar a esquecer os problemas do dia-a-dia.

Foi neste cenário que passei com alguns amigos dois dias rodeados por todos esses ingredientes. Tenho que admitir que o baque inicial foi grande pois nunca havia visitado algo tão suntuoso mas ao mesmo tempo um tanto quanto brega.

Mesmo podendo entrar gratuitamente o ambiente não passa perto de ser acessível. Passeando pela praia entramos num restaurante chamado Café de La Musique (www.praiacafedelamusique.com.br), o mais chique do lugar, a hostess nem olhou na nossa cara, afinal, segundo o próprio site, o foco é o público AAA, com alto poder aquisitivo e formador de opinião.

Dois comentários que não posso me furtar... AAA??? Achei que isso era um tipo de pilha e com aquela technera insuportável é impossível se trocar duas palavras, muito menos formar uma opinião. Mas afinal, quem ali precisa formar alguma opinião? Acho que ela já está formada há muito tempo. Os impostos estão muito altos, há muita corrupção no governo e o povo? Ahhh o povo... Esse quanto mais longe melhor, opinião ouvida de um dos usuais freqüentadores quando da saída de algumas pessoas da praia devido à chuva, segundo ele, a ralé (dentre a qual eu me incluo) estava indo embora, e agora sim ia ficar do jeito que ele queria.

Tive uma sensação antes inconciliável de nojo com bem-estar, banhada por curiosidades mundanas e antropológicas. Tenho que admitir que um dia por lá não foi suficiente por duas razões, a praia em si era ótima e o desfile de beldades em trajes sumários era entorpecedor.

Não cabe fazer uma análise preconceituosa, mas sim de constatar a realidade; a não ser que eu tire a sorte grande de ganhar na loteria nunca serei um AAA trabalhando num dito emprego respeitável, pois se estou no topo da pirâmide social num faço a mínima idéia onde esses indivíduos se enquadram.

Mas pra que fique claro, ainda prefiro uma conversa fiada acompanhada por algumas cervejas “baratas” na Vila Madalena e se um dia eu for presidente vou taxar ainda mais a champanhe importada, apesar de achar que num vai fazer a mínima diferença.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Se auto-ajudando!

Constatação bombástica: 98% das pessoas que lêem dentro do vagão do metrô se dividem entre o jornal do dia anterior e os livros de auto-ajuda. Há indícios de coisa errada nisso.
Um fator positivo é saber que é impossível prestar atenção nas letrinhas com o barulho e o sacolejo peculiar daquele meio de transporte. Quem faz de um hábito que devia ser prazeroso uma obrigação, e ainda, no metrô, o faz por não ter tempo, já que são trabalhadores, apressados, esforçados e... limitados!
É aí que começa o problema, as teorias desses livros, dizem, resumidamente, num emaranhado de fórmulas, como vencer na vida. É claro que o conceito de vencer é limitado a ganhar $dinheiro$ (ponto)

O engraçado é que o conceito é o mesmo usado por algumas “igrejas”. Esses dias vi na televisão o depoimento de um cidadão que, após começar a frequentar determinado culto, dizia que sua vida havia mudado. Até aí tudo bem, o embasbacante era a cena. O tal depoimento foi gravado dentro do carro importado que o gaiato conseguiu comprar depois que ele encontrou a salvação, fato que foi frizado diversas vezes pelo entrevistador.
Quem não tem dinheiro não venceu na vida, ou ainda num leu um livro de auto-ajuda, pois é sabido que os maiores empreendedores dos últimos tempos revolucionaram suas próprias vidas após a leitura atenta de um desses exemplares (sic).

Na verdade esses empreendedores tiveram uma iluminação, uma sacada boa, colocaram em prática com competência e se deram bem. Empreender, felizmente, não é pra qualquer um. No Brasil, em geral, o empreendedor é aquele que abre seu próprio negócio por necessidade, e não porque teve uma idéia inovadora. Resumo da ópera: a maioria desses negócios fecham antes do primeiro aniversário.
As pessoas que dedicam suas vidas à esse tipo de volume não tem consciência de suas limitações e acabam entrando num círculo vicioso... Exemplifico: minha vida está uma bosta, eu leio um livro que ensina passo a passo como vencer na vida, eu não consigo fazer o que me ensinaram, eu fico frustrado, minha vida fica uma bosta maior ainda, vou tentar ler mais um.
Será possível não enxergar o óbvio ulululante? Focar os problemas do mundo nas pessoas e não num sistema muito mais complexo que as cerca é a solução, porque se ela não conseguir chegar onde ela quer é problema dela, as fórmulas estavam dadas em Arial 12, malditos incompetentes!
Esse simplismo é o que empobrece a maioria dos debates. Se todos podem se dar bem, onde acharíamos aqueles que precisam se dar mal para que as coisas se mantenham do jeito que são? Pelo que sei, enganar os outros se enquadra em algum artigo com nome pomposo do código penal.
Estava na hora de uma nova inquisição, queimemos todos as auto-ajudas em gigantescas fogueiras e não faria mal nenhum colocar os autores das obras para alimentar o fogo. Acabemos com os criadores e com as criaturas.

Isso feito, já poderia me sentir como o idealizador de um grande feito e quem sabe escrever um livro pra mostrar para os pobres mortais como é que se faz. Só espero que ele não acabe na prateleira dos livros de auto-ajuda.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Visita à Cidade Tiradentes

Sou Agente de Fiscalização no Tribunal de Contas do Município de São Paulo, e atuo mais precisamente na área de saúde. Em uma das minhas últimas andanças fui até a Cidade Tiradentes, extrema zona leste.
Tenho que admitir que tinha uma visão enviesada da região, pois um nome que é citado em 9 dentre 10 letras de rap deve ser um tanto quanto perigoso. Ledo engano. Comparado às outras "periferias" por onde andei encontrei um cenário bem diferente.
O centro, pode-se dizer assim, pois numa cidade como São Paulo temos várias outras cidades, e cada uma com realidades distintas, parecia o de uma pacata cidade do interior, mas a grande surpresa foi a constatação da presença maciça do ESTADO, em especial da prefeitura. Escolas, hospital, quadras de esporte, centros culturais, ruas asfaltadas e arborizadas, dentre outros, garantiam um ar de tranquilidade àquela remota região.
Comecei a pensar qual seria o motivo dos investimentos pesados ali e não acolá, e por enquanto ainda não consegui achar uma resposta, mas o que posso concluir é que, teríamos um cenário diferente se todas regiões carentes tivessem aquele tipo de atendimento.
É claro que não fiz consultas procurando pelas taxas de criminalidade ou de desemprego da Cidade Tiradentes, mas enfim, a primeira impressão é a que fica, e a que ficou é a de que as coisas podem funcionar.

CPMF

Quem não quer a CPMF já quis: os tucanos inventaram a CPMF.
. Quem não quer a CPMF são aqueles que querem fazer o “desmanche” do Estado (*) e de suas políticas sociais.
. Quem não quer a CPMF é quem não aceita que a saúde do brasileiro melhorou – por causa do dinheiro da CPMF.
. Quem não quer a CPMF não se conforma com a última Pesquisa de Amostra Domiciliar, PNAD, do IBGE, que mostrou que a renda da metade inferior da pirâmide de renda cresce mais que a metade superior.
. Quem não quer a CPMF é quem não se conforma com a idéia de que, segundo a PNAD, a desigualdade de renda – o índice de Gini – melhorou.
. Quem não quer a CPMF é quem acha que o mercado é mais eficiente para dar hospital e escola.
. Quem não quer a CPMF quer o “Caixa Dois”, porque a CPMF é o melhor imposto para “flagrar” o “Caixa Dois”.
. Quem não quer a CPMF quer matar o Governo Lula de fome e impedir que ele faça o sucessor.
. Quem não quer a CPMF não quer que o PAC vá para a frente, porque, para manter os investimentos sociais, sem a CPMF, será preciso cancelar obras do PAC.
. Quem não quer a CPMF quer “starve the beast” – “fazer a besta morrer de fome” (*2)–, o grito de guerra dos neoliberais: tirar recursos do Estado até ele morrer de inanição.
. Quem não quer a CPMF é o pessoal que quer ficar rico com “other people’s money” – o dinheiro dos outros –, a forma clássica de a elite branca (e separatista, no caso de São Paulo) brasileira “administrar” o Estado.
. Quem não quer a CPMF quer que as favelas do Rio desapareçam do mapa, jogadas no Rio da Guarda, e não aceitam que, sob inspiração de Leonel Brizola, as favelas se transformem em bairros – sem violência, sem tráfico, e com serviços sociais.
. Quem não quer a CPMF gostaria de nomear o Coronel Ustra diretor-geral da Polícia Federal, para só prender “preto, pobre e p...”
. Quem não quer a CPMF toma café da manhã na pracinha e lê a revista Veja, todo domingo.
(*) Sobre o “desmanche” do Estado, recomendo a leitura de “O Ex-Leviatã Brasileiro”, de Wanderley Guilherme dos Santos, Editora Civilização Brasileira, 2006: “Em nome de sua modernização e de melhor desempenho na economia globalizada, o poder executivo teve 30% de seus quadros eliminados em sete anos (de 1995 a 2002), talvez a maior leva de demissões da história da administração pública em nação sem passado socialista.”
(*2) Sobre a Teologia do Neoliberalismo, aqui imposta pelo Governo do Farol de Alexandria, à semelhança de Salinas no México; Fujimori no Peru; e Menem na Argentina, recomendo a leitura de “A Brief History of Neoliberalism”, de David Harvey, Oxford University Press, 2005. Harvey lembra que a Teologia do Neoliberalismo começou no Chile de Pinochet dos “Chicago Boys”, e depois se “globalizou” com a aliança Thatcher-Reagan. Harvey demonstra que a Teologia Neoliberal nasceu como resposta ao aumento da renda da metade inferior da pirâmide de renda, com as políticas sociais do Pós Guerra. Portanto, o santo padroeiro de quem não quer a CPMF é Augusto Pinochet.

Paulo Henrique Amorim